A cisão de 1996 (2,5/10): Considerações sobre a separação.

Uma postagem extra na nossa série onde falamos sobre os eventos que levaram a família Hulman-George dos diretores da CART, mas algumas pessoas reclamaram (com razão) que pouco dei minha visão sobre esses fatos. Bem, para corrigir esse erro, farei uma postagem com minhas impressões sobre essa separação, e prometo corrigir esse erro nas próximas postagens da série.



MAS ANTES, UM ALERTA: para melhor entendimento, é importante ler os dois capítulos da nossa série sobre a cisão, que são esses: 1. Prólogo: IndyCar x Indy Car e 2. O surgimento da IRL e os negócios de cada lado.

No capítulo 1 a gente viu a CART crescendo exponencialmente e resolvendo alguns problemas internos, o Indianápolis Motor Speedway (IMS) tendo queda de interesse e influência e o surgimento das primeiras rusgas entre eles. No segundo capítulo vimos que as duas decidiram caminhar para lados diferentes, mais brigas, a última tentativa de não-cisão e o surgimento da IRL. Neles podemos ver erros de ambos os lados.

A CART cresceu muito em um espaço curto de tempo e, subitamente, se viu com fortíssima atenção nacional e internacional para si, enquanto o IMS, durante os anos 80, perdia, pouco a pouco, toda a glória e referência que tinha no passado. Tony George, então presidente do IMS, percebeu isso e culpou, em sua maioria, a CART, dizendo que ela não provinha mais um ótimo espetáculo para as 500 milhas de Indianápolis.

Esse foi o primeiro erro de George, que reavivou os velhos conflitos entre os donos de equipe (CART) e os donos do IMS. A queda de audiência pode ter vindo de vários pontos, como as transmissões passarem de passar no horário nobre da TV em 1985 (valeu pela dica, Paulo Rubens), a competição coma NASCAR ou, aquela que eu acho que é a razão maior, que o IMS parou no tempo. As 500 milhas de Indianápolis é um poço de tradição e qualquer atividade feita lá tem décadas de história; com o tempo, as mesmas coisas vão sendo feitas ano após ano e não há inovação, quando não há inovação, corre-se o risco da geração que assiste atualmente não ser tão atraída por seu evento, daí você pode contar apenas com a base fixa de fãs que você já tinha e a sua atração cai. É algo natural em eventos milenares que não se reinventam. Mas não, a culpa era da CART.

A partir daí, George tentou algo com os diretores da CART, mas conseguiu praticamente nada. Como uma das bases de seu mandato era recuperar o prestígio que o IMS perdia ano após ano, TG usou outra tática: recorreu a eventos de grande porte sem ligação com a CART. Isso não é grande problema, o IMS é grande o suficiente para receber várias categorias, mas se envolver com categorias rivais pode trazer problemas, como trouxe um pouco na última tentativa de conciliação entre o IMS e a CART: Bernie Ecclestone fez aquela proposta esdrúxula de carros da Fórmula 1 correr as 500 milhas com carros modificados, mostrando a relação dele com Tony George e fazendo uma boa parte dos diretores da CART desgostarem ainda mais dele.

Entretanto, a CART também tem sua boa parcela de culpa na história toda, isso muito devido a seu caráter mais agressivo de "negociação". A CART surgiu do descontentamento de pilotos e equipes, e conseguiu seu campeonato após uma guerra travada com a USAC, e só conseguiu adentrar as 500 milhas de Indianápolis após subjulgá-la.  Desde então, esse caráter de brigar para conseguir maior atenção se tornou marca da chancela.  Quando ela cresceu exponencialmente no fim dos anos 80, viu que tinha que expandir seus negócios, para crescer ainda mais; entretanto, ao invés de apostar em mais praças dentro dos EUA/Canadá e apostar em algo certo, foi para o rumo duvidoso das corridas internacionais.

O erro da CART não foi propriamente ir para o exterior, como expliquei no capítulo 2, isso foi até bom; o ponto ruim foi a forma que foi feita. É sabido que o órgão mundial principal do automobilismo, com exceção aos EUA, é a FIA (ou FISA, na época), então fica subentendido que deve-se negociar também com ela os detalhes dos eventos de automobilismo internacionais de grande porte. A CART ignorou completamente esse fato subentendido e foi em frente com uma corrida em Fuji que foi cancelada e com uma corrida em Surfer's Paradise, que foi pra frente a altos custos; e também atraiu a ira da FISA e de Bernie Ecclestone.

A mesma coisa aconteceu com o próprio IMS. Tony George mostrou as quedas sucessivas de público e audiência nos eventos das 500 milhas de Indianápolis, e a CART cagou solenemente para ela. Claro, não era diretamente problema dela essas quedas, apesar de George pensar que sim, mas simplesmente não ligar muito e não tomar atitudes par ajudar o principal e mais lucrativo evento em seu calendário não é uma forma muito esperta de política de vizinhança.

Daí muita gente, nesse ponto, toma um partido e fica naquela velha briga de PT versus PSDB "Tony não tinha nada que atrapalhar no crescimento do automobilismo da CART", "Culpa do orgulho da CART que não dava o braço a torcer" ou conclui que a culpa vem do orgulho/arrogância e da falta de comunicação das duas partes. 

Eu vou um pouco mais além. Conforme mais leio, mais vejo e mais pesquiso, vejo que essa separação de CART e IMS talvez fosse inevitável, por assim dizer.

Dois tucanos não se beijam, não há dois caciques em uma tribo. Posso fazer mais uma centena de ditados para mostrar que, quando há dois líderes em algo, as chances de dar errado é maior, bem maior. Desde 1981 a CART havia subjulgado tanto a USAC quanto o IMS, o apaziguador John Cooper estar na presidência e ajudar a criar essa coexistência ajudou muito, mas não duraria por muito tempo. Bastou a presidência do IMS ver que as 500 milhas estava perdendo influência e público para voltar ao seu ataque contra a CART. 

As duas, historicamente, se odeiam e, ao meu ver, uma se separar da outra seria inevitável. A maior pena é que essa separação se deu da pior forma possível: a categoria se rachando ao meio e as duas definhando.




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6 comentários:

  1. Apesar de eu não ter os mesmos conhecimentos que você tem a respeito do assunto, compartilho com você as mesmas impressões sobre o ocorrido: a ideia de que houve orgulho/arrogância nos dois lados e também a falta de vontade de trabalharem juntos para que houvesse um equilíbrio de interesses para evitar a cisão.
    Além do erro de avaliação do Tony George ao atribuir à CART a baixa audiência e a queda de prestígio do IMS, acho que houve motivação pessoal também para que ele reavivasse os conflitos. Quando a CART iniciou suas atividades, a maior parte das corridas do calendário de corridas de monopostos eram gerenciados pela USAC e conforme os anos iam passando, estas corridas, uma a uma, iam passando para a CART; até que chegou o momento em que todas estas corridas (com exceção das 500 milhas de Indianápolis) faziam parte do calendário da CART e isto já no início dos anos 80 (ou anos 1980, como dizem hoje em dia). Quer dizer, primeiro se observa uma categoria novata levar embora suas corridas e logo depois leva embora seu prestígio. Acho que sim, houve uma motivação pessoal dos Hulman-George para tudo isto.
    Quanto a CART, acredito que com o seu rápido crescimento, deve ter se sentido como um valentão invencível que pode fazer o que quiser, esquecendo-se de que os autódromos internacionais estavam sob a gestão da FIA e do Bernie Ecclestone e que estes ao terem seus interesses contrariados, certamente tomariam providências para derrubar o "valentão invencível".
    Sobre a inevitabilidade da cisão, lembro-me de uma entrevista do Christian Fittipaldi que li na internet em que ele dizia que o problema da Indy era justamente esta coisa de haver mais de um cacique na mesma tribo. Ele afirma que em certos momentos é necessário a presença de alguém (de uma pessoa) mais "pulso firme", como o Bernie. Esta presença do Bernie, na opinião do Christian é que manteve a solidez da F1 durante todo o tempo e acho que a opinião dele vai de encontro com o que você disse no texto de hoje.
    Por hoje é só e sem querer pagar pau, estou gostando muito dessa série; estou aprendendo muita coisa dessa história, pois eu só maldizia a IRL (como faz uma boa viúva da CART) e também a desconhecia por pura preguiça de pesquisar o que aconteceu, hahaha.

    Um abraço!
    Karl

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  2. Bem, a CART tambem nunca foi unida entre si e ha relatos que havia uma guerra de egos e bastante confusao. O fato que estava chovendo dinheiro, tanto que ainda em 2000 Cris Pook reportou que a categoria tinha 100 milhoes "free" em reservas no banco , dinheiro que nao duraria muito ... Por outro lado fico pensando como a CART poderia ajudar as 500 milhas a crescer pois querendo ou nao havia muitos carros e patrocinadores...NMO o problema real que as 500 e a CART passaram a ser disputadas por muito pilotos estrangeiros , com os grandes nomes americanos como Mears, Mario,etc se aposentando e os pilotos americanos cada vez mais postos de lado principalmente apos 96 ... obvio a NASCAR ofereceu americanos idolos inclusive fora do circulo redneck como o proprio Jeff Gordon e isto contou muito no processo. Assim vejo que internacionalizacao perigosa nao aconteceu ir pra fora ( ir correr na australia) e sim por dentro com cada vez mais pilotos estrangeiros no grid. Apos 96 nenhum outro piloto que ganhou a categoria foi americano.

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    1. "Por outro lado fico pensando como a CART poderia ajudar as 500 milhas a crescer pois querendo ou nao havia muitos carros e patrocinadores"
      Lembro de ter lido uma vez, no antigo "Blog da Indy", que em 2001 ou 2002, a CART tinha enviado uma proposta para IRL, apresentando intenções de mudar seu regulamento técnico que tornaria seus carros parecidos com os da IRL, na tentativa de promover um "intercâmbio" de times de ambas categorias, porém esta proposta foi rejeitada pela IRL. Acho que esta foi a única tentativa de proximidade entre as duas categorias.
      Não acredito que a presença dos times da CART, com seus patrocinadores e seu numeroso grid dariam uma alavancada na audiência da IRL, pois, a IRL viveu um momento de fartura no início da década passada, quando os carros usavam o famoso "pack racing", tendo corridas sensacionais (parecidas com Fontana 2015) e ainda recebeu um bocado de times e parceiros da CART neste período (times como Penske, Ganassi, Mo Nunn, Rahal, Andretti e também a Honda e a Toyota). Mesmo assim a IRL nunca foi lá essas coisas como a CART; não sei porque.
      Após 96, se não me engano, houve vários campeões americanos, porém somente pela IRL .

      Um abraço!

      Karl

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    2. Talvez seja por costume, Karl. Estamos bastante acostumados com automobilismo europeu, correndo em mistos com equipes de apenas um ou dois carros, estratégias de paradas e ultrapassagens decididas em freadas.

      A IRL e os americanos proporcionaram algo muito diferente no automobilismo.

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    3. Sim, é verdade! É aquela visão estereotipada e amarga, principalmente aqui no Brasil, com comentários do tipo: "Eles só sabem virar o volante para esquerda e são todos americanos redneck".
      Hoje em dia a Indy é a categoria mais completa (na minha opinião), diversos tipos de pistas, pilotos "carne de pescoço" e etc. Acho que o maior pecado dela hoje em dia é esta coisa de querer transmitir as corridas em TV fechada; tem que passar na TV aberta, pois, as corridas estão "bombando" e o público perdendo isso.

      Um abraço!

      Karl

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