Indy 500: a milagrosa vitória da esfinge Indyanística

A Indy 500 mais esperada dos últimos três ou quatro anos foi vencida por um americano estreante. Pena que esse americano estreante é Alexander Rossi. Ou não.
Bug no cérebro.
A centésima 500 milhas de Indianápolis foi, a exemplo da edição de cem anos, em 2011, repleta de emoções proporcionadas pela economia de combustível. Pode parecer estranho, mas gosto muito desse tipo de final para provas longas, pois, não importa o quão bom seja o piloto ou o ajuste do carro, o importante é a estratégia e a sorte. Eu, como espectador, adoro as paradas cardíacas que esse tipo de fim de prova pode proporcionar.

Nesse ano, Tony, Newgarden e Hinchcliffe estavam na frente na volta 163, até todos nós ficarmos extremamente surpresos por Takuma Sato bater. Houve aquele ritual de todos pararem na volta 164 e, no fim da volta 166, todos largarem sem saber se tem ou não etanol 85% para chegar ao final. Drama de combustível.

No fim, apenas três pilotos conseguiram seguir na prova sem parar. Will Power e Charlie Kimball estavam em carros que voavam, mas tinham que andar muito lentamente para economizar e fazer o milagre do combustível. Eles acabaram se perdendo e ficaram para o meio do pelotão. Alexander Rossi venceu.

A cara do Muñoz não entendendo o que o Rossi fez.
Durante os treinos, onde os pilotos imprimiam ritmo de corrida e paravam apenas para encher o tanque e trocar pneus, vimos que um tanque de combustível normal dura de 27 (Chevy) a 28 (Honda) voltas. Pessoas que economizam combustível conseguem fazer 29, as que economizam muito fazem 30, as pessoas que fazem o milagre da multiplicação de combustível (Dixon, Franchitti, Hunter-Reay) fazem 31. Fazer 32 voltas em bom ritmo é impossível, completamente inconcebível. Rossi fez 34 voltas (na verdade 33 e meia) em ritmo bom de corrida.

Como isso é possível? Simples, corrida de computador.

Com tantos treinos, cada equipe sabe o quanto cada carro gasta em cada trecho da pista. Vendo as condições na telemetria da Andretti, Bryan Herta, o estrategista do carro #98 de Rossi, comandava quanto, como e onde o estreante americano poderia acelerar seu carro rumo à vitória. Todos (computador, telemetria, Herta e Rossi) fizeram um trabalho, desde a coleta de dados (estar numa equipe com cinco carros ajuda) até a dosagem da velocidade no pé fizeram a vitória vir, com uma margem de erro de duas curvas, pois na saída da curva três ele já não tinha combustível, mas foi o suficiente para ele se sagrar vencedor da 100ª Indy 500.

Contando desse jeito parece nada milagroso e uma vitória sem esforço, mas foi exatamente o contrário. Rossi, Herta e a Andretti como um todo tiveram que trabalhar muito para conhecer o máximo possível do carro e realizar o milagre. É um feito extraordinário que levou-os a ficar na frente de várias figuras carimbadíssimas por aí.

Mesmo sem glamour, uma vitória de um americano em uma equipe americana e sendo estreante é algo digno de história e euforia por parte dos yankees. O maior problema foi que quem venceu foi Alexander Rossi.
Síntese do Rossi pré Indy 500:
moldando o banco da Indy com o uniforme da Marussia.
Durante toda a prova, tivemos histórias que se tornariam lenda instantaneamente (Hélio com quatro vitórias, a ressurreição de Hinchcliffe, etc.); aquelas que dariam uma incrível história de merecimento e consolidação, por sempre batalharem na categoria e fazerem dela sua vida (Newgarden, Muñoz, etc.); aquelas que dariam uma história muito surpreendente pela bizarrice do acontecimento (Lazier, Stefan Wilson, Pippa Mann); e aquelas histórias que ninguém ligaria depois da Indy 500 seguinte (Hawksworth, Chaves, Tagliani, etc.).

O único que resultou numa história meio estranha por ter uma história pregressa negativa foi Alexander Rossi.

Rossi fez toda sua carreira com um único foco: a F1. Desde 2009, um ano depois de conquistar a F-BMW americana, rumou sua carreira para o outro lado do Atlântico e lá se apaixonou pelos carros que gritam com o RPM mais alto. Fez todo o caminho que é mandatório para um piloto chegar até a categoria máxima do automobilismo euro-asiático, até chegar a pilotar em uma equipe de fundo de grid por cinco provas no ano passado. Quando conquistou o vice-campeonato da GP2 e viu que as portas estavam todas fechadas, foi obrigado a dar uma pausa em seu sonho de F1, e um quarto ano de GP2, principalmente quando já se foi vice-campeão, fica meio estranho. Ele teve de mudar de ares.

Por todo esse tempo, Rossi foi sondado por equipes pequenas e médias da Indy. Desde 2013 o piloto manteve algumas conversas sérias, mas sem grande desenvolvimento devido a um ponto característico da Indy: os ovais. Esse tipo de circuito está diretamente intrínseco à Indy, e que afastava Rossi de qualquer envolvimento maior com a categoria, e gerava declarações como essas:

Para mim, como piloto, não sou interessado [na Indy] apenas por causa dos ovais. Se o momento da Indy fosse para a volta dos circuitos mistos eu a consideraria como opção, mas enquanto os ovais fizerem parte significativa do certame eu não estou interessado.

Para mim, o risco [de se correr em ovais] é muito alto. Não sei se no passado os acidentes aconteciam com maior frequência e mais pessoas se feriam e faziam com que os espectadores fossem mais acostumados a ver essas cenas. Mas, hoje em dia, esses acidentes são um grande choque para todos, e creio que essa é a razão pela qual a Indy não é interessante e se torna pouco popular.

Não a acompanho desde a cisão, mas creio que a Indy é um campeonato muito competitivo e muito difícil de ser campeão. Mas creio que eles passaram do limite e creio que isso é bom pra F1, pois a Indy não é popular e as pessoas buscam por outras categorias melhores no que se trata de monopostos.

Essas declarações vieram em agosto de 2013, quando o campeonato da Indy ia chegando ao fim e os rumores de Rossi voltar para casa de vez aumentaram, mas o piloto afirmava mais do que categoricamente que não iria desistir de seu sonho de guiar na F1.

E, dois anos e meio depois das suas declarações polêmicas, ele ganha a Indy 500.

Dois anos depois delas, ele adentrava no mundo da Indy, quer dizer... mais ou menos.

Parece cara de focado, mas é cara de esfinge.
Após alguns testes desde o fim de 2015, Rossi acertou para correr numa equipe amálgama, com direção e recursos humanos da Bryan Herta, mas patrocínios e estrutura da Andretti. Mas ele também tinha outra equipe, a Manor, onde era piloto reserva (já que a F1 não tem testes faz tempo) da F1.

Em St. Petersburg, quando perguntado do que sentia e o que esperava do fim de semana de estreia, ele apenas dizia que "Sinceramente, não sei o que esperar de tudo isso. Treinei incessantemente durante a pré-temporada, mas não faço ideia do que esperar".

Aos poucos, ele parecia mais aberto ao mundo da Indy, como nos testes em Phoenix, onde alegou achar a experiência de dirigir em um oval interessante e excitante. Nos circuitos mistos seguintes se declarava cada vez mais acostumado com a categoria e até brincou que "achava que os pilotos aqui passavam do limite, mas descobri que passar do limite pode ser bem mais divertido".

Hoje em dia ele já parece estar bem ambientado na categoria, mas a desconfiança de que ele, a qualquer momento, abandona tudo para """correr""" na Manor ou em qualquer outra coisa da F1 sempre fica no ar. 

Sempre ficar meio aqui meio lá, ter desdenhado completamente a categoria e utilizá-la apenas como último recurso para não se aposentar aos 25 anos não ajudavam na popularidade do americano. Isso, junto ao fato do piloto pouco demonstrar suas emoções a não ser com palavras que os novatos treinam tanto nas categorias de base (também conhecido como cara de cu esfinge) fizeram sua caveira com uma boa parte dos Indyanistas.

Duas grandes características desses torcedores são: a memória infinita para aqueles que destratam a categoria e a grande emotividade dos amantes da categoria. Isso faz com que, a não ser que o piloto faça algo extraordinário e mude completamente de comportamento, uma grande parte da torcida da Indy simplesmente o odeie, não importando o que ele faça. Parece completamente injusto, preconceituoso e algo que demoraria muitos anos, mas assim que as coisas meio que são.

E daí esse piloto "único" vence a corrida mais importante desde 2012, deixando esse gosto estranho na boca, como se tivéssemos colocado adoçante demais no café.

Alexander Rossi, em conjunto com sua equipe, fez algo extraordinário e deixou sua marca na categoria. Agora resta saber se ele também deixará sua marca entre os fãs da categoria também.
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