Indy Center Brasil entrevista Felipe Giaffone

Este é post número 500 do Indy Center Brasil! E nada melhor do que comemorar esta marca com uma entrevista com o ex-piloto da Indy e atual comentarista da TV Bandeirantes, Felipe Giaffone.

Hoje correndo na Fórmula Truck, o brasileiro conta como foi a sua passagem nos EUA, sua relação com Dan Wheldon e AJ Foyt, o início da carreira como comentarista e ainda dá a sua opinião sobre o rumo que a categoria está tomando.


Confira a entrevista:

IndyCenterBR: Como e quando você descobriu que queria ser piloto? Você teve alguma dificuldade no começo?

Felipe Giaffone: Vendo meu pai correndo, sempre gostei e quis andar apesar do meu pai segurar um pouco... Comecei no kart, e tive a facilidade do meu pai ja saber bastante sobre o assunto.

ICBR: Depois de começar sua carreira nos monopostos brasileiros, por que optar pra ir pros EUA em vez de seguir a tendência e ir pra Europa?

FG: Eu estava vendo muitos pilotos indo pra Europa depois indo para os EUA. Arrumamos um patrocinador que tinha mais interesse nos EUA e junto com meu pai, tomamos a decisão de ir direto para os EUA.

ICBR: Após três anos na Lights, você acabou assinando com a Treadway pra fazer sua estreia na IRL. Como foi essa pré-temporada e as negociações? Seu alvo inicial era a Treadway e a IRL?

Felipe correndo com o patrocínio da Hollywoood
em 2002.
FG: Foi muito difícil meu inicio nos EUA, quando consegui um grande patrocinador (HOLLYWOOD) não consegui uma grande equipe na Indy Lights pois as melhores ja tinham patrocinadores conflitantes. Minha intenção inicial não era a IRL, fiz bons testes nos carros da CART (PPI e MoNunn), cheguei muito perto de assinar com a MoNunn , mas o fabricante de motor, na época, não queria um piloto novato.

ICBR: Foi a Treadway que te procurou, talvez pelo quarto lugar na Lights, pela vitória em Michigan no ano anterior ou pelo patrocínio da Hollywood, ou você procurou a Treadway?

FG: Eu tinha boa parte do patrocínio mas precisava de um lugar relativamente barato e que tivesse a outra parte. A Treadway foi a unica alternativa. 

ICBR: O seu ano na IRL foi 2002, quando esteve na Mo Nunn. Inclusive foi nele que você teve sua melhor participação na Indy 500, só que faltando 5 voltas para o fim, você perdeu contato com o Helio e o Paul Tracy conseguiu a 2º posição, indo à caça do Hélio e fazendo aquela chegada polêmica sobre bandeira amarela. O que aconteceu naquela hora? Foi alguma turbulência que te fez ir para a parte suja da pista e perder contato, ou alguma outra coisa?

FG: Aquele dia ficou marcado... apesar do terceiro lugar ser muito bom, no final da prova o meu carro era o mais rápido... Quem estragou minha brincadeira do o Dario que saiu dos boxes para ajudar o Paul Tracy que era terceiro ( eu tinha acado de ultrapassar). O Helio liderava mas não tinha combustível para chegar no final, então ao invés de passar o Dario, ele preferiu economizar combustível atras dele, nisto, encostei neles muito carro e escorreguei na turbulência do Helio e o Tracy me passou, apos algumas voltas teve um acidente e o Helio conseguiu chegar... 

ICBR: Tanto em 2001, (quando você foi ‘rookie of the year’), quanto em 2002, você tinha grandes chances de se dar bem no campeonato, até de ser campeão como no caso de 2002, mas teve quebras e incidentes no final, faltando três provas para o campeonato terminar. Falando de um jeito meio brincalhão mesmo: você tem azar e um certo trauma com últimas três etapas de campeonato?

FG: Pois é, fui azarão mesmo, nos dois anos tive problemas na parte final, mas ao mesmo tempo, tenho boas lembranças pois foram anos que tive grandes momentos....

ICBR: Novamente citando a entrevista para o extinto ‘Blog da Indy’, você falou que tinha algumas propostas para ir para a Penske, para a Panther, mas decidiu renovar com a NoMunn no final de 2002. Por que fez essa escolha? Você gostava do clima da equipe?

FG: Sim, tive também um contato da Andrretti que iria entrar na categoria e levaram meu engenheiro e queriam que eu fosse junto, mas para ir para qualquer uma delas eu teria que sair da HOLLYWOOD que foi quem me deu a oportunidade inicial, alem disto, tinha um bom contrato e uma equipe que apesar de pequena, meu deu grandes resultados em 2002.

ICBR: Já no ano seguinte a temporada não foi muito boa, principalmente após o acidente com o Wheldon no Kansas. Você pode dizer o que aconteceu naquele acidente?

FG: Se não me engano, até a prova do japão eu estava em terceiro no campeonato (apesar de sentir muito a saída do meu engenheiro de 2002), depois do Japão, meu motor quebrou na primeira volta em Indianapolis e bati no texas. Em Kansas eu estava trocando vácuo com o Tony e Dan, em uma das trocas o Dan não meu viu por dentro e não deixou espaço e batemos. Foi muito chato pois ele, na época por ser novato, não queria ter spotter  pois o desconcentrava. Mais pra frente ele reconheceu o erro e ficamos bons amigos mas me custou o fêmur e bacia quebrada. 

Acidente com Dan Wheldon no Kansas em 2003.

ICBR: No final daquele ano, a Hollywood pulou fora do “barco” e, mesmo com o Morris tentando alguma coisa, você não conseguiu continuar na equipe. Então, perguntando a mesma coisa de quando você entrou na Treadway: você procurou a Dreyer ou eles te procuraram?

FG: A Dreyer que me procurou pois o dono que tabém era piloto da equipe (robie buil) desistiu de andar pois estava com resultados horríveis. Como já tinha começado o campeonato e não tinha nada, eles ofereceram um contrato razoável até o fim da temporada, fiz besteria de aceitar... eles eram muito fracos...

ICBR: Depois, em 2005, você teve seus dias de loucura, que foi quando você guiou pela Foyt nas 500 milhas de Indianapolis. Você pode contar para o pessoal do blog como foi isso?

FG: Nossa, foi loucura mesmo. Esta em indianapolis tentando correr pela MoNunn mas não deu certo, tinha tomados bons vinhos com minha mulher naquela noite em um restaurante que ela gostava muito (estávamos de passagem nos EUA) e fui chamado no último minuto pelo Foyt...

ICBR: É verdade que o AJ gostou tanto do que você fez em Indy 2005 que ele te contratou para uma ‘full season’ no ano seguinte?

FG: Sim, foi por causa dessa corrida que o AJ me contratou. Como falei antes foi uma loucura mesmo, eu estava fazendo compras no shopping lá e ele acabou me chamando para correr de última hora. Achei até que era uma brincadeira, entrei no carro completamente despreparado, mas foi bastante especial e no dia seguinte eu já estava tirando a foto oficial junto com os outros pilotos e foi bem bacana. Mas a corrida foi bem razoável, nem me lembro em que posição eu cheguei, aí no final do ano ele me ligou chamando para correr no ano seguinte justamento por causa dessa corrida.

AJ Foyt e Felipe Giaffone.

ICBR: Ainda falando da Foyt, naquela época ela era uma das piores equipes do grid e tinha alguns problemas. Você acha que hoje a Foyt ainda permanece com esse status?

FG: Não, não, a Foyt melhorou muito. Hoje ela faz algumas boas corridas graças ao Larry Foyt, o filho do AJ, que assumiu a equipe. E o Larry na época reclamava junto comigo que a equipe era uma porcaria realmente [risos]. O Aj era o próprio engenheiro, um cara muito legal, muito bacana, mas não era uma equipe que estava estruturada. Foi bom eu ir pra lá, mas eu já sabia que seria o meu último ano na categoria pois era uma equipe pequena. Mas depois de alguns anos o Larry assumiu, colocou engenheiros bons e hoje não tem nem comparação com os caras que estavam na equipe na minha época lá.

ICBR: Você entrou Fórmula Truck ainda em 2005, e voltou em 2007, quando venceu seu primeiro de três títulos na categoria. Ir para a Truck e voltar para o Brasil, depois de sair da Indy, foi a melhor decisão que você poderia ter tomado?

FG: Na minha época foi, porque obviamente a Stock Car seria o caminho natural, mas a minha família tinha um vínculo com a fabricação dos carros e não queria me envolver e então pra mim foi. Quando eu saí lá do meu último ano com o AJ eu estava bem amargo com corridas, eu não queria mais, mas quando me ligaram para ir para a Truck e numa equipe que tinha acabado de ser campeã, onde eu poderia ganhar corridas e com chances de andar bem, aí me animei e acho que tomei uma decisão super certa lá e ainda mais depois de um tempo conquistei vários títulos ali e foi muito bacana.

ICBR: Já sua carreira como comentarista começou em 2009. Como você teve essa ideia? Te ajudaram muito no começo?

Teó José ajudou Felipe na sua carreira de
comentarista.
FG: Começou mesmo como um pedido da Band como convidado em algumas corridas ao lado do Luciano e foi ficando. E quem realmente me encaminhou, me forçou de uma boa maneira para assinar um contrato foi o Téo José. Se hoje eu estou na Band contratado eu devo ao Téo que me encaminhou lá dentro para que não ficasse apenas como um convidado, e sim, como um comentarista contratado da TV e está sendo uma experiência muito bacana. Eu adoro, é uma experiência diferente, ao mesmo tempo porque eu vivi lá dentro eu normalmente sei o que está acontecendo, mas também eu preciso me dedicar porque não é uma coisa fácil, então eu aprendi muito com o Téo, com o pessoal da Band, estudei um pouquinho fora em alguns cursos aí pra tentar falar de uma maneira bacana pois as vezes a gente tem toda a ideia na cabeça, mas não consegue passar isso pra fora, então a minha briga é sempre essa.

ICBR: Então, ano que vem você continua firme e forte comentando as corridas?

FG: A princípio sim né, meu contrato está renovando e não me mandaram embora até agora não [risos]. Até aonde eu sei está tudo certo, ainda mais agora com o anúncio da prova no Brasil. É uma coisa muito legal, e com um pessoal muito bacana e além de tudo é uma coisa que eu curto fazer.

ICBR: O Téo foi repassado para o futebol, então o Nivaldo Prieto é o seu novo companheiro nas transmissões?

FG: Isso, o Téo me abandonou lá né [risos]. Foi pro futebol, foi promovido, e a Indy agora está soprando mais pro Nivaldo mesmo. E ele tem sido um cara muito bacana, uma pessoa muito legal e fácil de trabalhar junto, então estamos tocando a vida.

ICBR: Em 2011, na última corrida de Las Vegas, aquela que os dirigentes ofereceram um prêmio de 2 milhões e meio de dólares para o vencedor, você quase correu novamente e iria colocar um capítulo extra na sua carreira como piloto, mas acabou não dando certo. O que aconteceu?

FG: Olha foi muito maluco, a gente da Band tinha uma ideia de fazer um reality show na última corrida e a gente passou isso pro pessoal da Indy, começamos a negociar com a equipe onde o Dan Wheldon morreu e tinha essa chance mas não deu certo. A gente apresentou as ideias para a direção da Indy, eles demonstraram o interesse em deixar eu participar, mas daí as regras mudaram e eles meio que copiaram um pouco das ideias do reality show da gente. Mas foi um absurdo lá, na hora que eu comecei a ver os treinos, os pilotos comentarem antes da prova eu já estava prevendo uma grande besteira lá, tinha inclusive comentado com o Téo que não seriam várias porradas, seria uma porrada grande mesmo. Então eu acho que foi um erro do ex-diretor da Indy que olhou 100% para o público e esqueceu dos pilotos e deu no que deu.

Atualmente, Felipe é piloto
da Fórmula Truck
ICBR: Você estava fazendo a transmissão pela Band quando houve aquele acidente fatal e catastrófico de Las Vegas. Durante a transmissão, você citou uma carta de desculpas que o Wheldon fez pouco tempo depois do acidente no Kansas, mas que nunca leu. Até o momento do acidente fatal, você fez as pazes com o Wheldon?

FG: Sim, sim. A gente ficou um tempo sem se falar, e no mesmo ano em que eu bati ele veio aqui fazer as 500 Milhas de Kart aqui na Granja Viana e ficamos amigos acho que uns 3 anos ainda depois do nosso acidente lá, que foi coisa de novato mesmo. Então, a gente virou amigo mesmo, até porque ele era muito próximo do Tony.

ICBR: Wheldon tem seu nome homenageado nesse carro novo, que entrou em 2012. O que você pode falar desse carro e das corridas que ele proporciona?

FG: Olha, o carro tem gente que reclama da aparência, acho que é tudo uma questão de costume. O que eu achei de bacana nesse carro novo é que ele tem esse para-choque traseiro, que deixa a corrida com os carros mais próximos, até se encostando, está quase igual a de turismo. Então em termos de corrida ficou mais disputado, de uma forma geral ficou legal sim.

ICBR: O rumo que a categoria está tomando, colocando doubleheaders, largadas paradas, dobrando a pontuação nas corridas que fazem parte da Triple Crown... é um caminho correto a se seguir?

FG: Olha, eu tenho um pouco de dúvida nessa rodada dupla. Pra ser sincero, isso aí acho voltado só para o lado do marketing, porque no fundo os patrocinadores têm que estar satisfeitos com essa bagunça toda. Eu acho muito esquisito, acho muito longo uma prova inteira no sábado e depois outra prova inteira no domingo, é muita coisa, mas como eu não sei o resultado que isso está dando eu não posso te dizer algo mais concreto. Mas dando retorno eu sou a favor pra tentar reerguer a categoria pra recuperar o que ela perdeu há alguns anos e agora vem remando para voltar ao que era antigamente.

ICBR: E a sua opinião quanto às largadas paradas?

FG: Eu acho que tem que ter largada parada, é bacana! Dá uma emoção a mais e é uma questão de costume, mas ao mesmo tempo eles têm que trabalhar pra fazer dar certo né, porque aconteceram alguns imprevistos. 

ICBR: Sim sim, e qual é o seu balanço sobre o final dessa temporada?

FG: Uma pena né, pois a gente pensa "ah, o Hélio foi mais uma vez vice", mas ao mesmo tempo a gente lembra que mais uma vez ele estava brigando lá até o final. Como eu já estive lá dentro eu sei o quanto é difícil. Teve a vitória do Tony também, ou seja, são pessoas da minha época e eles estão aí, andando em grandes equipes. Agora a gente precisa de gente nova né, é isso. Mas é uma pena mesmo o Hélio perder o título para o Power que também é um ótimo piloto, já adquiriu experiência, não faz mais tanta besteira, conseguiu ser mais constante e  mereceu vencer né, piloto muito rápido.

ICBR: Se alguma equipe, por qualquer que fosse o motivo, o convidasse para guiar um Indy novamente, você iria?

Giaffone comemora sua vitória em Kentucky
FG: Não, acho que não [risos]. Para dar umas voltinhas eu até toparia, mas para competir não. Minha cabeça está em outro lugar, até porque tem um bom tempo que estou sem pilotar um Indy, a chance de voltar a competir é minúscula. Quando eu andei no carro de dois lugares foi super bacana, isso aí eu faço quando for preciso, mas pra voltar ao nível de competição, eu sei o quanto difícil que é e realmente minha cabeça não está mais lá não.

ICBR: Pra terminar: em 2002, antes da sua vitória em Kentucky, você disse para a ABC que a sua pista favorita era aquela que você vencer. Então... Kentucky e Michigan são suas pistas favoritas? =P

FG: No caso lá foi né [risos]. Mas foi mais uma brincadeira que eu falava lá na época, obviamente sempre tem as pistas que você gosta mais e as que você ganha são especiais. A milha melhor memória lá foi nas 500 Milhas de 2002 onde eu quase venci e Indianápolis é a pista que eu mais gosto e mais odeio ao mesmo tempo, porque quando você está com um carro bom de guiar é espetacular, mas quando o carro está ruim é a pista mais traiçoeira que existe. Então, tudo depende do momento.


ICBR: Obrigado Felipe pela entrevista ao Indy Center Brasil, abração!


FG: Opa, valeu! Abraço!

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