• Apenas o templo coroa

    Existe uma grande semelhança entre o Reino Unido e a Fórmula Indy: as pessoas só são coroadas depois de vir, ver e vencer nos templos. No caso da Indy esse templo é o Indianápolis Motor Speedway, e o coroado da vez é Will Power.
    Nesse domingo vimos que, logo depois de Stefan Wilson e Jack Harvey desistirem de perseguir a gloria porque, assim como os postos do Brasil, eles estavam sem combustível, Will Power despontar na prova com uma grande vantagem e vencer a centésima segunda 500 milhas de Indianápolis. 

    A vitória veio na 196ª corrida da carreira do australiano. Ele começou na mediana Walker Racing na Champ Car, onde conquistou vitórias e foi o melhor novato da sua temporada (2006). Na reunificação, foi correr pela KV, onde venceu a última prova oficial da Champ Car nos monopostos: a Toyota Long Beach de 2008. Apesar disso, dá pra dizer que Power passou incógnito pela Indy até o início de 2009. Sua carreira tomou maior destaque no mundo da Indy quando foi chamado em caráter de urgência para substituir Hélio Castroneves na Penske. O brasileiro teve problemas com o FISCO Americano, e não pôde participar das duas primeiras etapas do ano, Roger Penske chamou o australiano que estava na KV mas não tinha contrato acertado para aquele ano.

    Essa foi aí que conhecemos Will Power. O australiano foi muito bem nas duas provas que correu, chegando a fazer pole e liderar a prova em Long Beach, até Dário Franchitti dibrá-lo na estratégia com uma amarela oportuna e tomar a liderança da prova. 

    E, quando Will Power era o vice-líder do campeonato, teve de dar o carro novamente para Hélio. As pessoas estavam felizes com a volta do brasileiro, mas as pessoas queriam mais Power na Penske. Roger Penske também queria, e ficou numa sinuca de bico, pois Hélio Castroneves tinha acabado de vencer sua terceira 500 milhas de Indianápolis e Ryan Briscoe era o único da equipe que disputou o título pela equipe em 2009. O capitão só teve uma alternativa, depois de quinze anos, voltou a alinhar três carros no grid. Essa se mostrou uma decisão acertada quando Will Power conseguiu uma vitória e mais um pódio, conseguindo terminar todas as provas do ano entre os dez primeiros.
    Power vencendo a primeira pela Penske.
    Nos anos seguintes, Power se mostrou um piloto extremamente rápido, conseguindo dar voltas simplesmente voadoras na hora certa, além de ser tomado por bons momentos de ultrapassagens arriscadas para os outros mortais mas que, com Will Power, sempre dava certo. O australiano conseguiu nada mais nada menos que treze vitórias e 22 pódios nas 51 provas das três temporadas seguintes, o fazendo ser favorito e postulante ao título em todas essas temporadas.

    Mas o azar sempre vinha nos ovais. Como a capacidade de forçar bastante o carro em momentos decisivos e de arriscar ultrapassagens são cruciais nos mistos, Will Power as desenvolveu ao máximo em sua carreira na Europa e na Champ Car, mas essas características não são muito atrativas nos ovais, pois atraem muitas batidas. Isso ficou evidente em 2010, quando Power completou todas as provas em mistos nas cinco primeiras posições, mas com seus cinco piores resultados no ano sendo feitos em ovais, incluindo seu único abandono, na etapa final em Homstead, quando ele estava entre os cinco primeiros e bateu sozinho, perdendo o campeonato. Padrão parecido ocorreu em 2011 e 2012, com os piores resultados de Power acontecendo nos ovais, mas sempre indo bem nos mistos e chagando na etapa final do campeonato como líder, mas essa etapa era em um oval e ele sempre se envolvia em um acidente ou simplesmente batia sozinho.

    Isso criou a estigma do piloto cheio de atitude e bom em mistos, mas sem conseguir andar bem em oval. Com o maior destaque de Power no mundo da Indy e com a categoria cada vez mais entrando no mundo digital, mais pessoas conheciam a personalidade excêntrica e porra louca do piloto, fazendo com que se reforçasse ainda mais as características tão bem quistas em mistos e execradas em ovais.
    Power se tornando tri-vice-campeão com mais uma batida em oval.
    A sua característica pessoal nunca mudou, o piloto continuou sendo ele mesmo fora da pista, mas dentro dela mudou consideravelmente, se tornando mais paciente e cerebral nos ovais e melhorando seus resultados a olhos vistos. Foi assim que dominou as 500 milhas de Fontana em 2013 e, com resultados razoáveis nos circuitos que viram apenas para a esquerda, conseguiu seu primeiro título em 2014, mesmo com a temporada tendo pontuação dobrada nas três provas de 500 milhas do ano. Depois de Fontana, Power ainda venceu em Milwaukee, no Texas e também as duas últimas edições das 500 milhas de Pocono.

    Apesar disso tudo, das 31 vitórias, 58 poles, de ter vencido um campeonato, duas 500 milhas em Pocono e de estar entre os dez primeiros colocados em sete das últimas oito provas de 500 milhas, parecia que Will Power ainda não era levado tão a sério em Indianápolis. 

    Parecia que o australiano sempre estava um patamar abaixo de Dixon, Castroneves, Kanaan e até mesmo pilotos que venceram recentemente a prova, como Rossi e Hunter-Reay. Apesar de Power estar sempre com um bom ajuste nos treinos e brilhar neles, o nome do australiano da Penske era pouco citado em bolões e casas de apostas afora. Mesmo no último momento, quando ele liderava faltando duas voltas para o fim, parecia que ele iria fazer algo, bater em Charlie Kimball.

    Isso porque todos os supracitados já tinham um anel de vencedor das 500 milhas, enquanto Power tinha os dedos vazios. Power era apenas um príncipe que tinha o estigma de não se poder confiar nos ovais, no mesmo patamar de Josef Newgarden, Simon Pagenaud e Sebastien Bourdais.

    Mas, depois de ser o primeiro piloto a cruzar a jarda de tijolos pela ducentésima vez gritando "Show me respect, mother fucker!!" Will Power foi coroado como um dos reis da Indy. Um rei diferentão que não sabe o que fazer com a garrafa de leite de comemoração e espalhou todo seu conteúdo em metade de Indianápolis, que grita por respeito e tinha se tornado o piloto ruim de ovais de Taubaté, mas entra definitivamente para a família real Indyanista.

    Pois apenas Indianápolis coroa os reis da Indy.


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