• Os ovais curtos e suas corridas.

    Os ovais curtos estiveram desde sempre no mundo da Indy, mas com seu jeitão diferente de corrida, ainda há espaço para ele nos calendários da Fórmula Indy?
    Os ovais curtos estiveram desde sempre no mundo da Indy, até mesmo antes de existir carros Indy ou o Indianápolis Motor Speedway. Esses circuitos derivam dos hipódromos, lugares onde não só cavalos corriam, mas também os primeiros carros de corrida. Com o passar do tempo, vários tipos de circuitos diferentes foram surgindo, como os ovais de madeira, os ovais de terra e, por fim, os cobertos de asfalto e concreto, geralmente com curvas ou retas inclinadas. Os ovais curtos foram acompanhando essas evoluções e, pouco a pouco, se modificando, mas uma coisa não mudou entre eles: o estilo de corrida.

    Mas antes, vamos definir o indefinível: o que é um oval curto?
    Indy em Milwaukee, 1964.
    Muitos definem como um oval pequeno, com dimensões menores do que a maioria dos ovais mas outros também definem pela velocidade média em que um carro faz a volta toda e outros ainda definem pela forma como se guia em um oval para classificá-lo como curto ou não. Isso faz a diferença em carros mais lentos, como na NASCAR e na USAC, mas na Indy esses três parâmetros se convergem e acabam virando uma coisa só. Para o mundo da Indy um circuito oval com dimensões menores que 4/3 de milha acabam sendo classificados como ovais curtos pois, em grande parte, são os ovais com menores médias de velocidade e também são os ovais que exigem maiores redução de velocidade nas curvas. Temos casos de exceção, como as reduções nas curvas de Pocono, ou as velocidades bem altas de Iowa ou ainda a bizarrice de Meadowlands mas, no geral, essa é a tendência.

    Ovais curtos tendem a ter retas e curvas também curtas e todas para o mesmo lado. Isso faz esse tipo de circuito se tornar o elo perdido entre o circuito misto e o circuito de oval tradicional: os ajustes de suspensão, asas dianteira e traseira e até mesmo a cambagem toda torta típica de ovais maiores se aplicam também aos ovais curtos, mas o esquema de pilotagem e ultrapassagem adotado em circuitos mistos é bem parecido com o praticado nos ovais de dimensões diminutas. 

    O modo de corrida usado nos mistos acaba se reproduzindo nos ovais curtos. Com curvas menores, os pilotos são obrigados a passar por elas em velocidades menores, fazendo reduções de marchas e diminuição na aceleração do carro e o tangenciamento nas entradas dessas curvas. O resultado final é apenas uma linha preferencial no oval curto, igual a dos circuitos mistos.
    Iowa é um dos únicos ovais curtos que, dependendo das condições, tem duas linhas de corrida.
    As corridas em ovais curtos sempre foram intrincadas. Com retas menores que a dos circuitos mistos e com os carros de cambagem torta, conseguir vácuo suficiente e sair da linha para arriscar uma ultrapassagem se torna mais difícil e faz com que os ovais curtos sejam o tipo de pista com o menor número de ultrapassagens existente. Nos ovais curtos cada ultrapassagem, mesmo a passagem por retardatários, pode ser tornar um parto.

    As ultrapassagens se tornaram mais raras ainda nesse tipo de circuito na Indy contemporânea. As ultrapassagens em circuitos ovais curtos dependem muito da sobrepujança de um carro sobre o outro. Por ocasiões de ajustes melhores, condições de estratégia melhor ou simplesmente equipe e equipamento melhores, o piloto de trás se mostrava muito melhor que o da frente e conseguia momento o suficiente para executar a ultrapassagem momento oportuno. Mas, desde meados da década passada, o equilíbrio entre os carros na Indy se tornou um dos principais chamarizes da categoria, e agora está intrínseco nos princípios do mundo da Indy. Antes, os carros mais rápidos viravam quinze, vinte ou até mais milhas por hora mais rápidos em cada volta do que os mais lentos, hoje essa diferença, durante a corrida, mal passa de dez milhas, e sub-julgar carros menores ou com ajustes/estratégias piores ficou bem mais difícil.

    O que vimos em Phoenix (na verdade, o que vemos em Phoenix desde o ano retrasado) é um caso extremo de corrida em oval curto. com carros muito equilibrados entre si, com velocidades próximas e estratégias parecidas na gigantesca maioria da prova; em conjunto com a nova configuração do oval do ISM Raceway, com mudança na angulação da curva um e diminuição da reta oposta, proporcionou uma corrida ansiolítica com lampejos de boa prova quando as estratégias mudaram, faltando umas dez voltas para o fim.

    Pode ter sido monótona mas, apesar do caso extremo, é a tônica dos ovais curtos. esse tipo de circuito, com exceção de Iowa, possuem apenas uma linha, retas não muito grandes. E, na Indy atual, sem tanta variedade de estratégia e com todos tendo o desempenho parecido, as ultrapassagens ficam escassas.

    O porém é que as pessoas não estão gostando mais disso. sim, agora que vai começar o texto de verdade, desculpa.

    Antigamente as pessoas gostavam desse tipo de corrida, pois o principal foco das corridas não eram tanto a emoção de ultrapassagens, mas ver um carro sobrepujando o outro na pista com todo o trabalho de ajustes de cada um, além de ver qual equipamento tem desempenho melhor. Com a grande crise que ocorreu no automobilismo de monopostos americano no fim dos anos 90, a variedade de equipamento caiu para o mínimo viável esse mote se perdeu.

    A diferença de ajuste também se perdeu, muito devido, ironicamente, para se ter mais emoção gerada pelas ultrapassagens e corridas com mais contato. Para ter isso na maioria dos outros circuitos, a aproximação de desempenho se tornou uma das máximas da Indy, e deu certo nos circuitos mistos e nos ovais longos, mas tem efeito inverso nas corridas de ovais curtos.

    As poucas ultrapassagens em Phoenix trouxeram pouco público tanto na TV quanto no autódromo, o que coloca o circuito em xeque para sua permanência. O público não está indo nem curtindo as corridas sem quase ultrapassagens na capital do Arizona. 
    A vitória do Newgarden foi inesperada e veio graças a estratégia.
    Entretanto, pelo menos pra mim, a corrida não foi monótona.

    Sou daqueles que acompanha a corrida via stream (adoro assistir corrida no PC) com os tempos e velocidades logo ao lado. Adoro estratégias, e a corrida de Phoenix teve três estratégias e, se utilizando delas, o carro que não estava dominando acabou ganhando. Não foi excepcional mas foi uma boa corrida nesse viés.

    Mas parece que ninguém mais liga para ajustes, estratégias e contas de combustível e pneus.

    Parece que só vale quando tem um monte de ultrapassagens, push to pass, pack racing e photo finish.
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    2 comentários:

    1. Honestamente, pelo menos hoje, pra corrida de Phoenix ser emocionante no quesito ultrapassagens e disputas, só se for colocado 30, 40 carros no grid, pra fazer aquela bagunça. As corridas em ovais curtos funcionavam antes (principalmente nas décadas anteriores) porque existia muita diferença nos equipamentos. Por exemplo, era comum os líderes ou os melhores carros alcançarem com facilidade os retardatários, e assim negociavam as ultrapassagens e passavam. Não acontecia essa bizarrice que vimos em Phoenix de o líder ficar um stint inteiro garrado atrás de carro lento.

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    2. Curvas de angulação variável seria uma solução. Outra seria ter mais um fornecedor de pneus, o que reduziria o 'marble'.

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