por Rafael Marinho, dO Indyanista

Última Indy 500 com todas as lendas guiando: 1991.
Desde a aposentadoria das grandes lendas do automobilismo no fim dos anos 90, o automobilismo americano ficou escassa em grandes pilotos do país. Será que, com essa nova leva de jovens americanos, essa falta está perto de acabar?

Quando os anos 90 começaram nos calendários do mundo automobilístico, a Indy não tinha problema com audiência televisiva, não tinha problema com seu público abandonando o hábito de ir para as pistas ovais, a Indy vivia o auge do que podemos definir como “fase áurea” da categoria. Qualquer pessoa com acesso a um aparelho televisivo nos Estados Unidos sabia responder do que se tratava a Indycar e alguns conheciam de verdade os times principais da categoria e as lendas com sobrenomes marcantes que ainda tinham atenção garantida no imaginário dos jovens americanos que costumavam seguir corridas de carros na Tv.

Entretanto, naquele início de década, um ano depois das duas grandes conquistas de Emerson Fittipaldi dentro dos Estados Unidos (Indy 500 e o título da categoria em 1989), os administradores da Indy não perceberam que também se iniciaria naquela década um significativo e conturbado processo de renovação do seu elenco de pilotos americanos, e justamente com os nomes mais consagrados da categoria nas décadas anteriores e que teriam nos anos noventa sua fase crepuscular.

Com o passar das temporadas, os ídolos da Indy foram caindo um a um na aposentadoria. Em 1992 Rick Mears (4 Indy 500 e 3 títulos da CART) deixa o automobilismo de forma inesperada aos 41 anos de idade, só um ano após a quarta conquista em Indianapolis. No mesmo ano, Gordon Johncock (2 Indy 500 e campeão da USAC em 1976) e fecha as cortinas da carreira terminando como um dos maiores vencedores das pistas ovais asfaltadas. Em 1993, aos 58 anos de idade, a maior lenda do automobilismo americano, A. J. Foyt (4 Indy 500 e heptacampeão da USAC) anuncia entre lágrimas o fim de sua carreira no Templo da velocidade durante os treinos para as 500 Milhas. Tom Sneva (campeão da Indy 500 e bicampeão da USAC), outra das lendas setentistas da Indy, ainda em 1993, fica sem carro para as 500 milhas e decide que era hora de parar sua gloriosa carreira. Al Unser Sr. (4 indy 500, bicampeão da CART) depois de fracassar na tentativa de classificação entre os 33 carros das 500 Milhas de 1994 anuncia sua aposentadoria - o maior da família Unser em todos os tempos, sem dúvida. Johnny Rutherford (3 Indy 500, único campeão de duas sanções da Indy no mesmo ano, cameão da CARt e da USAC em 1980) depois de mais uma tentativa fracassada em Indianapolis, também diz adeus às corridas nesse ano. Ainda em 1994, mas no fim da temporada, em Laguna Seca, foi a vez do lendário mito sessentista Mario Andretti (1 Indy 500, tricampeão da USAC e campeão da CART) se aposentar em definitivo das corridas de Indy e se dedicar exclusivamente aos carros esportivos dali em diante. Em 1995, o midiático Danny Sullivan (1 Indy 500 e campeão da CART) sofre um grave acidente no oval de Michigan e escolhe se aposentar da Indy. Dois integrantes da família Bettenhausen pararam suas carreiras em 1994 (Tony Jr.) e 1996 (Gary), e encerraram de vez o ciclo do clã tradicional do automobilismo americano nas corridas de Indy. Bobby Rahal (tricampeão da CARt e 1 Indy 500) um dos grandes pilotos oitentistas, finda sua trajetória depois do 11º lugar em Fontana no Campeonato da Indy-CART de 1998. Danny Ongais também se aposentaria das corridas de Indy nesse ano.

O novo século nem havia começado e a Indy já se via num labirinto escuro: dividida em duas sanções (de um lado Indy-CART e seus pilotos americanos herdeiros dos mitológicos sobrenomes e os estrangeiros talentosos cada vez mais interessados na categoria, e, do outro, a Indy-IRL com muita grana, apoio do pessoal da Nascar e seus pilotos americanos desconhecidos do grande público) e sem contar com nenhum piloto lendário em um de seus dois grids. O que poderia ser feito? - questionaram os profetas do Apocalipse Indyanístico.



Apostar as fichas em Eddie Cheever? Greg Ray? Mike Groff? Richie Hearn? Robbie Buhl? Buddy Lazier? Johnny Unser? Billy Boat? Mark Dismore? Tony Stewart? Davy Jones? John Paul Jr.? "Buzz" Calkins? Jimmy Vasser? Dennis Vitolo? Scott Pruett? Eddie Lawson? Bryan Herta? Michael McDowell? Robby Gordon? Parker Johnstone? Jeff Krosnoff? Memo Gedley? Alex Barron?

Aos trancos e barrancos, Al Unser Jr. e Michael Andretti, parte na Indy-CART e parte na Indy-IRL, tentaram manter seus sobrenomes famigerados em evidência dentro das pistas americanas, e, durante certo tempo, até conseguiram assumir o papel de “veteranos americanos durões” a serem batidos pelos novatos que buscavam a fama e a glória. Mas a concorrência pelas vagas nos melhores carros dos grandes times, das duas categorias, no inicio do novo milênio, já não era das mais fáceis para os filhos das lendas americanas e nem para os estadunidenses que sonhavam brilhar por anos na recém fundada Indy-IRL. O resultado foi uma invasão completa de pilotos estrangeiros (europeus e sulamericanos, principalmente) para comandar os cockpits mais importantes tanto dos carros da Indy-IRL quanto dos carros da Indy-CART.

Jimmy Vasser e Michael Andretti
O único americano a fazer algo fora do comum nesse período que vai de 1996 a 2007, na Indy-CART, foi o então novato Jimmy Vasser, do time da Ganassi, que conquistou de forma consistente o título de 1996. Michael Andretti, Unser Jr. e Jimmy Vasser, aliás, foram os únicos americanos a dar trabalho para os forasteiros talentosos. Al Unser Jr., no ano do título de Vasser, conseguiria um honroso quarto lugar no Campeonato e por pouco não formou uma trindade americana no topo da tabela da classificação final: Vasser foi campeão, Michael ficou com o vice e Unser Jr. com o quarto lugar. Existiu um intrometido mito chamado Zanardi no TOP3 dessa temporada. Depois do ano de 1998, a decadência tomaria conta dos resultados dos pilotos americanos na Indy-CART. De 2000 a 2007 houve apenas 13 vitórias americanas e nenhum título para os Estados Unidos. O novo século começaria sem qualquer piloto americano fazendo algo de muito relevante nas pistas da Indy-CART que empolgasse o público.

Do outro lado, a Indy-IRL abriu diversas possibilidades para muitos times e pilotos obscuros dos Estados Unidos disputarem suas provas, em pistas ovais, sem gastar os olhos da cara em busca de investimentos milionários de patrocinadores renomados, como acontecia na CART. Dessa forma, facilitou-se a investida de um grupo de pilotos estadunidenses como Sam Schmidt, Buddy Rice, Dr. Jack Miller, Joe Gosek, Dan Drinan, John Hollansworth, Jr., Robbie Groff, Billy Roe, David Steele, J. J. Yelley, Jimmy Kite, Donnie Seechler, Tyce Carlson, Andy Mitchner, Jack Hewitt, Jim Guthrie, Paul Durant, Steve Knapp, Robby Unser, Stan Wattles, Bryan Tyler na categoria fundada por Tony George. O problema era que, entre os pilotos pretendentes a ídolos da Indy-IRL, o piloto mais emblemático para herdar o trono deixado por Foyt e Mario, sem dúvida, era Tony Stewart, que, no entanto, como sabemos, trocaria a Indy-IRL pela Nascar e, com isso, daria de “brinde” mais um problema para os administradores da categoria.

Detalhe: em 1999, entre os 20 primeiros colocados do campeonato da Indy-IRL, 16 eram americanos, além do campeão, Greg Ray. Daí eu te pergunto, sem maldade no coração: quem é hoje Greg Ray para a história da Indy e do automobilismo americano? Sem uma carreira prolongada, sem o desafio de enfrentar e vencer os grandes veteranos do passado e do presente em uma Indy unificada, sem vitórias em pistas históricas contra pilotos históricos, a historieta escrita por Greg Ray não passou de um conto tragicômico quando comparado as odisséias legendárias de Andretti, Al Unser, Foyt, Sneva, Bobby Rahal, Mears, Johncock, Rutherford e por aí vai. 
Sam Hornish Jr.

Quis a sorte de Tony George colocar no primeiro ano da nova década um garoto americano talentoso para pistas ovais no grid da Indy-IRL. Apesar do título de Buddy em 2000, e lembrando que também foi Lazier quem conquistou a Indy 500 de 1996 (edição marcante das 500 Milhas onde o grid estava repleto de pilotos desconhecidos e sem a grande maioria dos times tradicionais), seria Sam Hornish Jr. a grande revelação da categoria naquela primeira metade da década e, certamente, poderia estar sendo até hoje um dos protagonistas e disputando mano a mano títulos contra Montoya, Helio, Dixon, Tony e Power. Mas, depois de três títulos (2001, 2002 e 2006) e uma vitória inacreditável no templo de Indianapolis em 2006, Sam preferiu largar mão dos carros de roda-aberta e, tal como Tony Stewart, foi seguir carreira na milionária Nascar. Sem o mesmo sucesso obtido na Indy, infelizmente para ele.

Enquanto isso, na Indy-CART, Hunter-Reay e Allmendinger eram as esperanças restantes para levantar a bandeira azul, vermelha e branca no lugar mais alto do pódio. No entanto, foram poucas as vitórias desses nativos entre 2000 e 2007. E foram muitas as vezes que esses pilotos americanos tiveram que assistir Bourdais comandando as corridas e a tabela de pontos. Ao todo, Allmendinger e Caçador venceram sete corridas da Indy-CART, sendo que A.J. venceu em Portland, Cleveland, Toronto, Denver e Road America, todas no ano de 2006; já Hunter-Reay conseguiu brilhar mais que Bourdais apenas duas vezes: uma em Surfers 2003 e outra na Milha de Milwaukee em 2004.

A Indy-CART, então já cambaleante na parte administrativa, com o grid diminuindo ano após ano, perdendo patrocinadores, perdendo Penske e Ganassi para a Indy-IRL, só poderia causar uma grande interrogação nos pensamentos dos pilotos americanos que não viam a estabilidade necessária para investir grana para manter suas carreiras. O êxodo para outros horizontes automobilísticos já assombrava boa parte dos pilotos ao fim da temporada de 2006. Então, a desgraça completa: começamos a temporada 2007 de um campeonato de monopostos nascido nos Estados Unidos SOMENTE com UM piloto do país: ele era Graham Rahal. O que aconteceu então? Dinger seguiu Hornish (e Stewart) e foi pra Nascar, enquanto Hunter-Reay peregrinou por alguns times da Indy-IRL a partir de 2007 e depois da reunificação em 2008, até que se acertou com a Andretti e teve um glorioso desabrochar para o sucesso no ano de 2012. O título de Hunter-Reay em 2012 terminou com um jejum de seis anos sem um americano vencer o título na Indy, em qualquer uma das sanções. E foi o mesmo Hunter-Reay quem quebrou outro jejum dos pilotos americanos: uma vitória nas 500 Milhas de Indianapolis de 2014, que tinha acontecido pela última vez em 2006 com o mesmo Sam Hornish. Seria o Caçador o “elo-perdido” para que a Indy conseguisse formar de novo uma legião de fãs ao redor de um piloto americano de roda-aberta?
Hunter-Reay: Vencedor da Indy 500 e do campeonato da Indycar.
Infelizmente não foi isso que aconteceu para a Família Hulman e demais administradores do certame mais veloz do mundo. Ser americano e ter vencido uma Indy 500 e um título da categoria REUNIFICADA não foram elementos suficientes para trazer mais fãs para acompanhar o novo herói ianque dos carros de roda-aberta.

Marco Andretti (filho de Michael e neto de Mario) e Graham Rahal (filho de Bobby) seriam os nomes mais indicados para ocupar os lugares de destaques na Indy depois da aposentadoria dos atuais veteranos (Helio, Dixon, Montoya e Tony)? É claro! Ambas as carreiras são relativamente curtas para a tradicional durabilidade que costumam ter as carreiras dos pilotos de Indy; ambos carregam dois dos sobrenomes mais conhecidos no automobilismo mundial; ambos começaram em meados da década passada nas corridas principais de Indy (Marco em 2006 e Rahal em 2007, um na Indy-IRL e o outro na Indy-CART praticamente falida), e ambos correm hoje nos times dos pais.

Com a vitória nas 500 Milhas de Fontana, Rahal não só conseguiu entrar de vez na briga pelo título de 2015 como também criou imensas expectativas, naqueles que acompanham a categoria, sobre o seu futuro como possível piloto herdeiro dos carros de ponta da Indy. O cenário fica mais favorável porque Graham é um dos pilotos que usa o kit e motor Honda, definitivamente bem inferior em grande parte das corridas desse ano ao kit aero e motor da Chevy, o que demonstra que Rahal teve que ter talento para se destacar com 5 TOP FIVE (dois 2º lugar, um 3º, um 5º e a vitória em Fontana contra um mestre de ovais, TK). Marco, por sua vez, aparece na sexta colocação na tabela e também com Honda. Por enquanto falta-lhe a vitória para dar mais relevância a sua boa temporada no time Andretti.

Será 2015 um ano de ascendência para as carreiras dos pilotos americanos novatos na Indy? As duas vitórias de Josef Newgarden por um time pequeno nessa temporada, o bom desempenho de Sage Karam em duas (500 Milhas de Fontana foi 5º lugar e 500 Milhas de Indianapolis de 2014 foi 9º lugar) das três provas de 500 Milhas que disputou com a Ganassi, a vitória de Graham Rahal numa prova de 500 Milhas e sua constância na busca pelo título mesmo com equipamento menos eficiente, até o momento, abrem definitivamente uma boa perspectiva para o futuro dos pilotos americanos na Indy. 

Lógico que temos pilotos americanos potencialmente capazes de surpreender em provas esporádicas e que não foram citados, casos de Ed Carpenter e Conor Daly, mas no momento acredito que está nas mãos de Marco Andretti, Josef Newgarden e Graham Rahal a receita do sucesso para essa nova onda de pilotos americanos se tornar os futuros veteranos que levarão legiões de fãs americanos para as pistas de rua, os circuitos mistos e os tão amados Ovais da Morte!

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